terça-feira, 2 de maio de 2017

O homem da calçada



Uma das coisas mais irritantes de se viver em uma cidade grande é o trânsito. Você perde diariamente horas da sua vida naquele sacolejar do “anda e para”. Aos poucos você vai conhecendo as pessoas que passam por esta “jornada diária”com você e vai desenvolvendo empatia por elas por dividir tantas manhãs de sono incompleto, cafés mal tomados e saco cada dia um pouco mais cheio.
Nessa falta de fuga do trânsito, você vai desenvolvendo habilidades, tais quais: Dormir em posições improváveis, terminar um trabalho no cubículo do seu banco e por último a devanear exageradamente sobre coisas ordinárias que se vê da janela do ônibus. Nessa eu fiz questão em me tornar especialista. Passava horas imaginando as histórias daqueles “estranhos íntimos” de cada dia.
Num desses dias eu me distraía com a vista da janela do ônibus quando vi um moço que mexeu comigo mais que o normal. Ele estava sentado na beirada de um degrau de uma loja, num cantinho onde não atrapalharia o fluxo de entrada e saída de pessoas da loja. Infelizmente, moradores de rua estão no dia-a-dia da cidade, mas ele era diferente. A imagem dele sentado em um canto, sem pedir nada a ninguém, sem olhar diretamente para alguém, mirando apenas os próprios dedos, me fez querer chorar do fundo do coração. No dia seguinte ao me aproximar da loja eu me preparei para procurá-lo, sem realmente acreditar que ele estaria ali. Estava!
O mesmo jeito miúdo, o mesmo olhar catatônico sobre seus dedos. Olhar era como uma facada nas costas. Não olhar seria fingir que ele não existia e desmerecer sua história.Quem é ele? Filho de quem? Come o que? Pensa em que? Qual foi a última vez que ele se sentiu bem? Será que já se sentiu bem?
Deste dia em diante eu passei a observá-lo todos os dias, e ele estava sempre no mesmo local, na mesma posição angustiante, com o mesmo olhar. Eu pensei em descer do ônibus e oferecer uma fruta. Não fui! Depois pensei em só perguntar se ele gostaria de conversar um pouco. Depois pensei em procurar se não haveria um abrigo que pudesse acolher ele. Não fiz nada. Nada adiantou minhas milhões de ideias, porque eu apática e travada não fiz nada. Por que não fiz? Eu gostaria de uma boa explicação, mas no final eu só tive medo. Nós vamos sendo ensinados a vida toda a termos medo e nesse aprendizado, vamos nos tornando cada dia menos sensíveis, cada  dia um pouco mais complacentes, cada dia menos humanos.

Hoje quando passei, meu moço da calçada não estava. A primeira vez em um ano passando por ali que ele não está no seu cantinho. Se ficou doente, se cansou, se morreu, se foi só caminhar... É a resposta que eu não vou nunca saber. Líquido e certo é que eu vou e mereço conviver com o “E se?” dos caminhos que a vida do moço da calçada poderiam ter tomado.E quantos moços da calçada mais serão histórias inacabadas?

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

From the past


"Mesmo quando tudo parece desabar,
cabe a mim decidir entre
rir ou chorar
ir ou ficar
desistir ou lutar,
porque descobri no caminho incerto da vida,
que o mais importante é o decidir."


Cora Coralina



Eu decido.Eu parto.


Porque mais fácil seria ficar e ver sua imagem se partir como uma desilusão ordinária. Mais fácil ficar e te ver aos poucos se tornar efêmero. Infinitamente mais fácil ver de você somente o que eles vêm. O que eles vêm de nada me serve. Porque eu, e só eu sei quanto você é mais. Então ao invés de ficar eu te deixo agora, pra poder te carregar comigo, sempre! 




Sou infantil e louca a ponto de todo o tempo querer buzinar minha presença em seu ouvido e despejar minha inquietação em seus passos pra ver se por fim sinto um pouco da sensação de justiça sendo feita. Pra ver se minha paz tomada se sente um pouco mais saciada. Bobagem! Nada disso te traz mais pra perto, nada disso te faz me querer mais, nada disso me preenche. Então me recolho forçadamente, enquanto não consigo fazer isso de uma forma mais natural.


E o que eu quero, e hei de querer até minha vontade não querer mais, e vou querer feliz feito essa gente que não sabe entender o significado que tem a palavra inatingível. Como diz Quintana:"Se as coisas são inatingíveis...ora!Não é motivo para não querê-las...Que tristes os caminhos, se não fora a presença distante das estrelas!"

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Spying


"...Is like you're screaming but no one can hear you. You almost feel ashamed that someone could be that important that without them you feel like nothing. No one will ever understand how much it hurts.You feel hopeless, like nothing can save you. Then when it's over, when it's gone, you almost wish that you could have all that bad stuff back, so that you could have the good..."


  Espionando. Me obrigo a ingerir todos os detalhes de vocês dois que é pra ver se meu querer finalmente cansa. Não contava que ele fosse ainda mais teimoso que eu. Eu continuo me vulgarizando em outras bocas que é para tentar te esquecer em algum amor mais doce. Continuo vulgarizando minha vontade tentando encontrar você em todos esses suores fugazes que me querem. E lendo nosso romance em qualquer linha perdida pra tentar me agarrar em qualquer final feliz que me dê conforto. Eu insana e continuamente, prefiro você!
   Devia ser suficiente ver a forma que vocês se olham, e o carinho com que se beijam. Devia ser suficiente o seu atraso de hoje me jogando na cara que toda rotina que há entre vocês não é tempo o bastante para tudo o que vocês pretendem dividir. Devia ser mais que suficiente ver o como sou completamente imperceptível quando ela está a seu lado. Esses amores ferozes nunca são mesmo bilaterais, e eu só durmo todos os dias desejando que ao acordar não seja mais eu a parte que ama e não é correspondida.Não, não é suficiente.
  Há em mim tantas partes que simultaneamente te amam e te odeiam, tantas "coras" que vivem só dos seus detalhes, tanta fome minha que se alimenta dos rastros que você com dó de mim deixa cair que, se eu covardemente deixá-las falir, também eu estarei falida. Por isso aceito tudo nesse romance que me faz mal e me faz nada, para merecer tudo o que me faz bem e me faz tudo e me mantem assim... Inteiramante espionando.




domingo, 1 de abril de 2012

Em você

Não faço ideia do que vi em você desde sempre, mas preencho-me das coisas que fiquei feliz em não ter visto. Você assim bobo, criança, cavalheiro , romântico errante e atrapalhado, consegue ser melhor do que tudo que vi no resto do mundo. Acho que é por isso que posso suportar quando percebo que à nossa volta, cartomantes, ex-amantes, nossos amigos e até os menos chegados nos diriam sem exitar que não estamos prontos um para o outro agora.Porém, corta-me o coração saber que você , para fugir do fantasma do "se" na sua vida futura, gasta sua energia em convencer a si mesmo que não daríamos certo.Logo você! Aquele que me fez entender o porque de eu nunca ter dado certo com os outros.Aquele que me fez sentir tão sinceramente o que é o bem querer livre e gratuito.
                                                                             "Sigo quierendote"

domingo, 14 de agosto de 2011

À vaidade

....Sim, a ela hoje rogo clemência.Ela que se mostra, me subverte e convence pela sensualidade do belo.Ah essa beleza que persuade calada, por si só.Reconheço que sou quase incapaz diante de tal potência e se não o sou, faço questão de aparentar ser , só pra não ter de sentir a culpa da recaída.
Eis então que me emboto de argumentos que engulo, digiro e por fim cuspo em forma de confissão, como se assim eu sinalizasse minha cura.De que adianta?rs....É só um jogo.Pretendo-me curada até o momento da visita de uma nova beldade.Não, não é necessário que me corteje, eu já o pus acima de qualquer exímio orador que me apresente argumentos até muito melhores.Ponho-me tomada por determinada feição e semblante de tal forma, que chega a acanhar palavras de outros.
E é por isso que hoje eu rogo à vaidade que não deixe a beleza me persuadir tão facilmente, mas se em todo caso ela for insistente ...bem, peço ao menos que a faça acometer-me em sua excelência , frequente e farta!

domingo, 17 de julho de 2011

reflexos

  
"Parece apatia, mas é indolência.Não que dois não se assemelhem, todavia há a tênue linha.Nela me mantenho hoje e tenho me mantido há tempos.A despeito do acoroçoar  externo, de todo o rebuliço, dos hormônios fumegantes e do que mais venha a ser, é a linha tênue que me condena.É esse pouco de cada, o eterno entremeio em que me ponho.É o cenário de repetidos adejos perdidos me definindo diariamente.
 Sou sim!Sou apática e indolente, talvez um mais que outro.Sou sim descoordenada.E  sim, sou sim sobretudo acrática.Portanto , acabemos logo com essa história de me dizer que  vida está a espera lá fora.A minha me espera aqui, implodida em mim, ardente e serena."

domingo, 26 de setembro de 2010

Boa noite!

Pra mim?Não, não...guarda contigo esse boa.Resta comigo apenas noite que por si só já é deveras grande.As horas que seguem este instante estão aflitas, sedentas por acometer-me.Há em minha cabeça centenas de idéias que se aglomeram mais a cada segundo.
Passam por mim transtornadas as coisas que não fiz... Coisas que desejei e me foram tomadas. Passam por mim coisas que fiz e me arrependo. Também, as que fiz e não me lembro.Passam por mim , alucinadas, verdades que criei ou omiti...e mentiras que agora são também verdades.Transcorrem meus sentidos as coisas que odeio com sinceridade pueril . Por fim ,passam por mim coisas que são nada, e a até elas me atormentam, mantendo-se aqui a confundir-me.
Sinto levemente uma lágrima percolar a face enquanto fecho os olhos aguardando impaciente pela hora que me trará uma boa noite. Mas não... é tarde.É tarde até para se ter sono. Ainda mais quando já se foi envenenado pelas coisas que faltam.Coisas que por vontade própria, a psique traz à tona.Como outras noites insones das quais entretanto me recordo com saudade tão terna que me embota os olhos d’água.
Ah, essas coisas... os opiatos de uma vida.Essas passam por mim como uma carícia ligeira.são a chance de mover-me a um outro momento qualquer... ou até de ser uma pessoa qualquer.Elas passam inteiras e ferozes, só para ter certeza de que apesar das horas desta noite correrem afoitas, eu permanecerei aqui, imóvel e atenta.Eu, de fato ,permaneço.
Ai cansaço...quando é que te tornarás sono?Sono, sono, sono...límpido e claro sono.Nem sei se sou capaz de tê-lo.Nem sei se sou capaz de ter algo.Se dor , se fúria ,se saudade ou amor...Nessa ausência de um sentimento que me defina me certifico de uma coisa.Umas coisa apenas.O sol pode até brilhar para todos, mas a imensidão desta noite é só minha.E eu a quero com lua.